Vinho da Sardenha: Vermentino, Cannonau e outras garrafas da ilha
O Conad é uma cadeia com lojas em toda a Itália e, por isso, esperava que a loja perto de Villasimius tivesse uma prateleira igual à de qualquer sítio no continente: uns nomes toscanos, alguma coisa do Veneto, prosecco. Em vez disso, ali estava o que a própria ilha cultivou - vermentino do norte, cannonau das montanhas, carignano do sudoeste. Surpreendeu-me a quantidade de coisas que uma cadeia nacional foi buscar à ilha.
O vinho da Sardenha é como a ilha inteira metida em garrafas: uma DOCG, dezassete DOC e uma série de castas que quase não encontras noutros pontos de Itália.

Vermentino: o branco em que tudo depende da zona demarcada
Duas garrafas de vermentino lado a lado e, à primeira vista, uma única diferença - o preço. O Vermentino di Gallura é o único vinho sardo com a mais alta designação italiana, a DOCG, que tem desde 1996; o Vermentino di Sardegna fica-se pela DOC. A casta é a mesma nos dois casos, o regulamento exige pelo menos 95 por cento de vermentino, e o que os separa é sobretudo a zona demarcada: a Gallura é o nordeste granítico da ilha à volta de Tempio e de Calangianus, a DOC vale para a ilha toda. A garrafa mais cara, da adega Tenute Tondini, chama-se Karagnanj, que é o nome da vila de Calangianus no dialeto local da Gallura - até o rótulo diz de onde vem. O vermentino em si é, porém, um viajante do mundo: cresce na Córsega, na Ligúria e na Provença, e, segundo a teoria mais citada, terá chegado de Espanha, via Córsega, às costas da Ligúria e de França. Provado não está. É apenas a versão mais bem contada.

Cannonau e Carignano: os tintos que sobreviveram à filoxera e aos aragoneses
A casta mais plantada da Sardenha chama-se cannonau e ocupa cerca de um terço das vinhas da ilha. A análise molecular apanhou-a em flagrante: é o mesmo que o grenache francês e a garnacha espanhola. Discute-se apenas quem é o pai: segundo a versão clássica, trouxeram-na os aragoneses e a primeira menção escrita ao "canonao" na ilha é de 1543, só que os arqueólogos encontraram junto a Borore grainhas de uva carbonizadas com 3 200 anos e parte da ilha concluiu daí que o cannonau é, pelo contrário, o antepassado do grenache. As grainhas provam que na Sardenha já se cultivava a vinha na época nurágica, mas que casta seria, isso ninguém consegue ler nelas com segurança. Os sites de turismo acrescentam que o cannonau é o segredo da longevidade sarda; a Ogliastra é de facto uma "zona azul" documentada, cheia de centenários, só que a prova sobre o vinho ainda ninguém a escreveu. O segundo tinto da minha escolha, o Carignano del Sulcis do sudoeste, tem uma história mais modesta: nos solos arenosos da ilha de Sant'Antioco a filoxera (a praga da videira) não sobrevive e, por isso, as cepas continuam lá hoje em pé franco, sem o porta-enxerto americano a que praticamente toda a Europa teve de recorrer no final do século XIX.


Vernaccia sob um véu de leveduras e Moscato para as pardulas
O vinho sardo mais invulgar só o levei na garrafa a trinta por cento. A Vernaccia di Oristano envelhece anos em vasilhame não atestado, sob uma camada de leveduras, à maneira do xerez, e tem sabor a noz e a oxidado - o turista devolve-a a pensar que está estragada, o conhecedor bebe-a com bottarga. Essa camada de leveduras comporta-se como a pele que se forma na caneca de leite quente da cantina da escola, só que com o resultado ao contrário: fecha o vinho ao ar e ao mesmo tempo dá-lhe um sabor que de outra maneira não teria. Em 1971 a vernaccia tornou-se a primeira DOC da Sardenha; com a toscana Vernaccia di San Gimignano não tem nada em comum a não ser o nome, o latim vernaculus - "local" - era o nome que os romanos davam à videira que simplesmente crescia algures. O Karmis, da adega Contini de Cabras, junta vernaccia e vermentino numa proporção de setenta para trinta - uma entrada mais suave do que a vernaccia pura. O final doce da ilha fica por conta do Moscato di Sardegna, um vinho de sobremesa de casta moscatel que na Sardenha se bebe com os bolinhos de Páscoa pardulas e depois do qual só resta o mirto. O vinho da Sicília tem quase quatro vezes mais vinha; a Sardenha, por sua vez, apostou um terço da ilha numa única casta.


Seis garrafas do Conad perto de Villasimius
Comprei os vinhos nos supermercados Conad e Crai à volta de Villasimius, no sudeste da ilha - seis garrafas, seis denominações diferentes, a maioria por cerca de 8 EUR. O que mais me soube bem foi um dos mais baratos: o Costamolino Vermentino di Sardegna da Argiolas, fresco, leve, bebe-se sem pensar. O Moscato di Sardegna da adega cooperativa Dolianova, doce, frutado e servido bem fresco, custava cerca de 10 EUR a garrafa de meio litro e voltaria a comprá-lo sem hesitar. O Karagnanj Vermentino di Gallura DOCG Superiore da Tondini foi, a 16 EUR, a única garrafa mais cara: cor palha com reflexos esverdeados, mais complexo, agradável de beber - e ainda assim não o melhor. O Cannonau Riserva da Sella & Mosca e o Karmis da Contini aguentaram-se, e o último lugar coube ao Grotta Rossa Carignano del Sulcis da Santadi, que naquela companhia foi o que menos me agradou. A garrafa mais cara acabou, portanto, algures a meio da minha escolha, e uma das mais baratas no topo.