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Gueffus: as bolinhas sardas de amêndoa em papéis coloridos

Dan Špaňhel Itália Atualizado Sem comentários

Pergunta na Sardenha porque é que os papéis coloridos têm as pontas desfiadas e ficas a saber que as franjas lembram as ameias dos castelos dos guelfos, a fação do papa nas guerras medievais. É uma bela história, mas tem um senão: foi inventada pela escritora Michela Murgia para o romance Accabadora e depois ela própria teve de explicar em público que aquilo era um enfeite literário, não história. Entretanto a história continuou a correr, porque é mais interessante do que a verdade.

Os gueffus (em sardo também guelfos) são bolinhas macias de amêndoa moída, açúcar e raspa de limão que não vão ao forno: cozem-se numa panela, passam-se por açúcar e embrulham-se uma a uma num papel colorido, como um rebuçado - um doce de festa da cozinha sarda.

Gueffus: bolinhas de amêndoa em papéis garridos.
Gueffus: bolinhas de amêndoa em papéis garridos.

O que significa o nome gueffus e porque é que ninguém sabe ao certo

A internet repete que gueffus é uma corruptela do espanhol huevos, ovos, por causa da forma das bolinhas - a Sardenha esteve quatro séculos sob a coroa aragonesa e espanhola, portanto até faria sentido. Só que nem as fontes espanholas nem as catalãs conhecem semelhante etimologia, e o ensaísta sardo Marco Piras-Keller propõe, em alternativa, uma pista que passa pela palavra gueffa, novelo, usada por Dante, e chega a uma raiz germânica. Três explicações, três países de origem diferentes para a palavra, e nenhuma documentada - a única certeza é que os gueffus são coisa de toda a ilha: no sul, no Campidano, chamam-lhes gueffus; no norte, à volta de Ozieri, sospiri, suspiros, com mel na massa e um glacê branco por cima; e em Sassari pirichittus, literalmente pequeninos. Fora da Sardenha não encontras nada igual, com nome nenhum.

Por todo o Mediterrâneo há massas de amêndoa aparentadas: a frutta martorana siciliana modela-se e pinta-se em forma de fruta, enquanto os gueffus continuam uma bola nua e deixam a pompa para o papel; a cozinha espanhola tem o mazapán de Toledo, com a percentagem de amêndoa fixada por lei e origem conventual, ao passo que nos gueffus ninguém fixa proporções; e há sítios onde os amygdalota gregos até vão ao forno.

Gueffus: uma bolinha de amêndoa embrulhada como um rebuçado.
Gueffus: uma bolinha de amêndoa embrulhada como um rebuçado.

De onde vêm os gueffus e o que se sabe mesmo sobre eles

Ninguém sabe datar a primeira menção escrita e a única coisa que se pode dizer sem entrar em adivinhações é o contexto: o açúcar espalhou-se pela cozinha sarda com os aragoneses, a partir do século XIV, e a doçaria de amêndoa veio com ele. Só que a importação espanhola documentada na ilha tem outro nome - menjar blanc, um creme de amêndoa que os colonos catalães levaram para Alghero e que ali se faz até hoje tal e qual como se faz em Tarragona. Os gueffus não têm nenhuma certidão de nascimento dessas; têm, isso sim, um lugar na lista sarda dos produtos tradicionais, onde está preto no branco que se fazem em toda a ilha.

Gueffus: uma bolinha desembrulhada, coberta de açúcar em pó.
Gueffus: uma bolinha desembrulhada, coberta de açúcar em pó.

Amêndoa, açúcar e uma panela: como se fazem os gueffus e quando se comem

A receita é curta, por isso são os pormenores que mandam. O açúcar ferve um instante com um pouco de água até ficar em calda, junta-se-lhe a amêndoa pelada e moída e a raspa de limão, deixa-se a massa amornar e com ela rolam-se bolinhas do tamanho de uma noz, que se passam por açúcar granulado e se deixam secar. O forno nunca entra na história - é doçaria feita sem cozedura, como as bolinhas de bolacha e rum que se fazem no Natal, só que sem rum e sem bolacha. As variantes distinguem-se pelo tempero: uma gota de mirto ou de outro licor na massa, uma cobertura de chocolate por cima, e no centro da ilha fazem-se parentes de avelã e mel, os bucconettes, que parecem quase iguais e sabem a algo completamente diferente.

Os gueffus são um doce de ocasião: casamentos, batizados, Natal, Páscoa e domingos em que a família vem toda. Antigamente faziam-se em casa até duas semanas antes, porque se conservam bem, e num casamento simbolizam ainda hoje que a vida a dois deve começar doce. Hoje compra-los em qualquer pastelaria e, numa caixa de oferta, até no aeroporto de Cagliari.

Gueffus: a bolinha mordida revela o interior granuloso de amêndoa.
Gueffus: a bolinha mordida revela o interior granuloso de amêndoa.

Os papéis da padaria Collu

Comprei os gueffus na Sardenha numa loja que os recebia da padaria familiar Biscottificio Collu, de San Sperate, perto de Cagliari; também outras fábricas usam papéis com o nome do fabricante, muitas vezes exatamente iguais, por isso pela embalagem reconheces os gueffus, não quem os fez. A bolinha era macia e húmida por dentro, a amêndoa mandou do princípio ao fim, o limão só se fez sentir na ponta da língua e o açúcar à superfície estalava baixinho.

Dan Špaňhel

Dan Špaňhel

Sou o Dan. Escrevo apenas sobre o que provei pessoalmente - da banca de rua à estrela Michelin. Pela comida já percorri meio mundo e experimentei de tudo - o possível e até o impossível.

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