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O que comer no Iraque: pratos típicos e especialidades iraquianas

Dan Špaňhel Atualizado Sem comentários

A cozinha iraquiana, muitas vezes também chamada mesopotâmica, está entre as mais antigas do mundo. As suas raízes remontam a milhares de anos, ao tempo das antigas civilizações da Suméria, da Babilónia e da Assíria.

Graças à sua localização, o Iraque serviu durante séculos de cruzamento de rotas comerciais, o que permitiu a troca de ingredientes e de técnicas gastronómicas com os países vizinhos (Irão, Turquia e Síria).

Comida típica iraquiana: kebab de borrego.
Comida típica iraquiana: kebab de borrego.

A base da alimentação local são os cereais, sobretudo o trigo e o arroz, as leguminosas e uma grande quantidade de legumes e de fruta, em especial as tâmaras, que aqui se cultivam em quantidades enormes. Quanto à carne, come-se sobretudo borrego e carneiro e, em menor medida, vaca e aves, ao passo que a carne de porco não se encontra de todo, por razões religiosas.

O prato nacional iraquiano

O prato nacional do Iraque é o masgouf. Trata-se de um peixe de água doce aparentado com a carpa, que se assa de uma forma muito particular sobre fogo aberto. A tradição deste prato está fortemente ligada aos rios Eufrates e Tigre, que atravessam o país e fornecem peixe em abundância.

Em Bagdade, sobretudo ao longo das margens do Tigre, há muitos restaurantes especializados precisamente nesta iguaria. Como a preparação demora horas, vale a pena encomendar o masgouf com antecedência.

Prato nacional iraquiano: masgouf. Peixe suculento e magnificamente temperado, grelhado durante várias horas numa fogueira especial.
Prato nacional iraquiano: masgouf. Peixe suculento e magnificamente temperado, grelhado durante várias horas numa fogueira especial.

Pratos típicos do Iraque

Um dos pratos mais típicos e mais difundidos no Iraque é a dolma. Na versão local não são apenas folhas de videira recheadas, mas uma mistura variada de legumes cozinhados todos na mesma panela. Os cozinheiros esvaziam e recheiam cebolas, beringelas, courgettes, pimentos e até tomates. O recheio é feito de arroz temperado misturado com carne picada, ervas aromáticas e concentrado de tomate.

Para ocasiões festivas e grandes reuniões de família é típico um prato chamado quzi. A sua base é a carne de borrego, assada inteira e lentamente, até ficar completamente tenra e soltar-se do osso sem esforço. A carne serve-se numa travessa grande com arroz ricamente temperado. Na cultura iraquiana, o quzi é muitas vezes o prato principal em casamentos ou quando se recebem convidados importantes.

Um doce iraquiano típico são os biscoitos kleicha. Fazem-se sobretudo durante as festas religiosas. A massa recheia-se principalmente com pasta de tâmaras, o que se explica pela enorme quantidade de tamareiras que crescem na região.

Tâmaras frescas num mercado iraquiano.
Tâmaras frescas num mercado iraquiano.

O que provar no Iraque

  • Masgouf. O prato nacional iraquiano. Carpa de água doce cortada ao comprido e assada durante várias horas sobre fogo aberto.
  • Chá. No Iraque, o chá é mais do que uma bebida. Não há como lhe fugir, é uma necessidade social. O chá iraquiano distingue-se pela cor muito escura, pelo sabor forte, pela grande quantidade de açúcar e pelo aroma a cardamomo.
  • Kebab. O kebab iraquiano é famoso pela suculência, conseguida com uma maior proporção de gordura de borrego na carne picada; ao contrário do turco, leva menos especiarias para deixar sobressair o sabor da carne.
  • Quzi. Prato de festa: um borrego inteiro recheado com arroz, legumes e frutos secos; a versão iraquiana distingue-se das restantes do Golfo Pérsico por uma mistura de especiarias própria, com predomínio de cardamomo e canela.
  • Dolma. Apesar de os legumes recheados serem conhecidos em toda a região, a dolma iraquiana é única pela acidez marcada que lhe dão o tamarindo e as limas secas e pelo facto de, além das folhas de videira, se rechearem também camadas de cebola e de outros legumes, algo específico do Iraque.
  • Pacha. Prato muito tradicional e pesado, feito de cabeça, pés e miudezas cozidos. O princípio "do focinho à cauda" levado à perfeição.
  • Kleicha. O biscoito nacional iraquiano, indispensável nas festas do Eid; a massa é muitas vezes aromatizada com cardamomo e nigela.
  • Znoud el sit. Sobremesa famosa cujo nome significa literalmente "braços de senhora"; são rolinhos de massa filo recheados com nata espessa, fritos ou assados e depois embebidos em calda de açúcar.
  • Tepsi baytinijan. Prato caseiro assado muito apreciado, de beringela, carne picada em bolinhas, batata e cebola que, ao contrário da moussaka grega, não leva camadas de bechamel, mas é estufado num molho de tomate espesso e agridoce.
  • Marag bamya. Borrego estufado com quiabo que, na versão iraquiana, se distingue pela consistência espessa, pela quantidade de alho e pelo sabor ácido.
  • Geymar. Nata muito gorda e rica, obtida do leite das búfalas que vivem nos pântanos do sul do Iraque, com um sabor e uma textura completamente únicos, diferentes da nata comum ou do kaymak turco.
  • Kahi. Massa folhada em camadas regada com calda doce. Tradicionalmente come-se ao pequeno-almoço, acompanhada do já referido creme de búfala geymar.
  • Guss. A versão iraquiana do shawarma; costuma fazer-se de vitela ou de borrego, cortado de um espeto vertical e metido no pão samoon com molho amba.
  • Tashreeb. Prato tradicional "camponês", que consiste em embeber pão iraquiano em caldo (na maioria das vezes de grão-de-bico com borrego); o pão absorve os sabores e torna-se o elemento principal do prato, quase desfeito em papa.
  • Kubba Mosul. Especialidade da cidade de Mossul, que se distingue das "kibbeh" fritas habituais pelo formato.
  • Samoon. Pão iraquiano tradicional em forma de barquinho, com crosta estaladiça e miolo macio e arejado, ideal para embeber em molhos.
  • Margat qeema. Prato cozinhado sobretudo durante a festa de Ashura, na região de Najafe; é um molho em que a carne com grão-de-bico se cozinha até se desfazer e se pisa até formar uma pasta filamentosa.
  • Makhlama. Especialidade de pequeno-almoço feita de carne picada frita com cebola e tomate, à qual só no fim se juntam os ovos.
  • Shalgam. Guloseima de inverno bastante particular, vendida na rua em grandes carrinhos; é nabo cozido em calda de tâmara até ficar macio, que lhe dá a cor escura e o sabor doce.
  • Daheen. Sobremesa extremamente doce e gorda, famosa na cidade de Najafe, feita de farinha, leite, açúcar, ghee e calda de tâmara, que depois de cozida fica com a textura de um caramelo denso. Polvilha-se com coco por cima.
  • Noomi Basra Chai. Bebida quente preparada com limas secas (noomi basra) originárias do sul do país; o chá tem um sabor fortemente ácido e terroso e bebe-se para refrescar e pelos benefícios para a saúde.
  • Amba. Molho picante de manga em conserva; a versão iraquiana distingue-se pela fermentação e pelo uso marcado de feno-grego, que fazem dele parte indispensável das sandes iraquianas.
  • Kubba Saray. Tipo específico de kubba de Bagdade, cozinhada numa sopa de tomate com grão-de-bico e limas secas. Tradicionalmente vendia-se aos operários do mercado de Saray.
  • Timman bagilla. Prato tradicional de arroz com favas frescas e muito endro, servido normalmente com borrego e iogurte, típico da primavera no Iraque.
  • Mann al-sama. Doce parecido com nogado, cujo ingrediente base é o maná (resina natural recolhida nas montanhas do Curdistão), misturado com açúcar, claras de ovo e frutos secos, considerado um "presente do céu".
  • Kaster. Pudim amarelo simples, mas omnipresente, que no Iraque é imensamente popular.
Sobremesa nacional iraquiana: znoud el sit (rolinho doce recheado com creme).
Sobremesa nacional iraquiana: znoud el sit (rolinho doce recheado com creme).

Bebidas típicas do Iraque

A base da cultura iraquiana é o chá, que se bebe ao longo de todo o dia. Os locais preparam-no muito forte e muito doce. Serve-se em copinhos chamados istikan. Também o café árabe tem um papel importante, mas, ao contrário do chá, serve-se sobretudo em ocasiões formais.

Dado o clima quente, no Iraque são populares algumas bebidas refrescantes muito particulares. Está muito difundida a bebida noomi basra, feita de limas secas. Tem cor escura e um sabor ácido marcado, que costuma suavizar-se com açúcar; serve-se quente ou gelada. Com a comida bebe-se muitas vezes o tradicional ayran, que ajuda a digestão e refresca o organismo. Insubstituível é também a água simples, que nas casas tradicionais ainda por vezes se guarda em bilhas de barro.

Bebida típica iraquiana: chá.
Bebida típica iraquiana: chá.

Como aproveitar ao máximo a comida iraquiana

  • Começa o dia com o pequeno-almoço tradicional de kahi e geymar. Este famoso pequeno-almoço iraquiano é feito de massa folhada (kahi) que se embebe em nata espessa de búfala (geymar) e se rega com calda de tâmara ou mel.
  • Prova o prato nacional masgouf mesmo à beira do rio Tigre. O masgouf é uma carpa cortada ao comprido, espetada em estacas e assada lentamente sobre um fogo aberto de madeira de alperce.
  • Experimenta a variante iraquiana da kubba. O Iraque tem dezenas de tipos de kubba (bolinhas de bulgur ou de arroz recheadas com carne picada).
  • Vai comer falafel de rua com molho amba. O falafel iraquiano tem a particularidade de se servir quase sempre com molho amba, que é manga em conserva com feno-grego e curcuma.
  • Termina a refeição com chá iraquiano. O chá iraquiano é muito forte, bastante açucarado e sempre fervido com vagens de cardamomo inteiras ou moídas.
  • Testa a tua coragem com o prato tradicional pacha.
    Esta comida pode ser só para estômagos fortes. A pacha come-se tradicionalmente no inverno ou de manhã cedo, como um pequeno-almoço muito substancial. Quando vires o que vem na panela, vais perceber.
Pequeno-almoço iraquiano típico: makhlama, vários tipos de queijo, nata espessa, tahine, frutos secos, mel, calda de tâmara e sopas.
Pequeno-almoço iraquiano típico: makhlama, vários tipos de queijo, nata espessa, tahine, frutos secos, mel, calda de tâmara e sopas.

Como agradecer pela comida iraquiana

No Iraque, a hospitalidade é sagrada. Em nenhum outro país fui convidado tantas vezes para um chá como aqui.

Os iraquianos usam frases próprias que desejam saúde a quem cozinhou ou fartura à casa onde se comeu. A frase mais básica e mais usada para quem cozinha é "Ashat idak" (عاشت ايدك), se falas com um homem, ou "Ashat idich", se estás a agradecer a uma mulher. Literalmente significa "Viva a tua mão".

Outra frase bonita e profunda é "Sufrah daymah" (سفرة دايمة), que o convidado diz ao anfitrião normalmente no momento em que se levanta da mesa depois de comer. A tradução literal é "mesa permanente" ou "mesa que dura sempre", mas o sentido é muito mais amplo. Com ela não elogias apenas o sabor da comida, desejas prosperidade a quem te recebeu: "Que esta mesa esteja sempre cheia de comida e que tenhas sempre meios para receber assim." É um gesto de grande delicadeza, que mostra respeito pela casa que te acolheu.

Se quiseres soar muito tradicional e humilde, podes usar a frase "Na'am Allah alaych" (نعم الله). Significa "A graça de Deus sobre ti" e assenta na convicção de que a comida é uma dádiva. Com esta frase reconheces que o anfitrião partilhou contigo essa dádiva de Deus.

Se quiseres elogiar de forma simples e direta o próprio sabor do prato e dizer que a comida estava excelente, os iraquianos recorrem quase sempre à expressão "Al-akl ykhabbul" (الأكل يخبل). O verbo "ykhabbul" no dialeto iraquiano significa literalmente "enlouquecer" ou "dar em doido", mas neste contexto usa-se num sentido puramente positivo, para algo tão bom que chega a ser inacreditável. É uma maneira muito expressiva e entusiasta de dizer que a comida estava fantástica.

Padeiro curdo.
Padeiro curdo.

A melhor comida iraquiana

Se tivesse de escolher três favoritos pessoais, a melhor comida iraquiana para mim é:

  1. Masgouf. Adoro comida grelhada e este peixe está preparado na perfeição, suculento e magnificamente temperado. Também a forma como se prepara é muito interessante.
  2. Kebab. Em toda a região sabem preparar carne de borrego picada na grelha na perfeição e o Iraque não é exceção.
  3. Guss. No Iraque ainda encontras sítios que fazem shawarma (ou seja, o döner kebab "turco") sobre carvão. Se encontrares um, não hesites nem um minuto e pede. O sabor é perfeito.
Guss iraquiano: preparação da carne sobre carvão.
Guss iraquiano: preparação da carne sobre carvão.

Curiosidades sobre a comida iraquiana

  • O livro de cozinha mais antigo do mundo vem da Babilónia. A Coleção Babilónica de Yale guarda três tábuas datadas de cerca de 1700 a.C. Contêm 35 receitas. Na maioria são caldos de carne e estufados que usavam alho, alho-francês e cebola. Uma das receitas descreve até um "guisado vegetariano" com cerveja e ervas aromáticas.
  • A invenção da palhinha tem que ver com a cerveja suméria. Os sumérios (sul do Iraque) inventaram a cerveja, mas ela era muito turva e cheia de restos de malte e de pão. Para a poderem beber sem engolir o sedimento, inventaram a palhinha. Os arqueólogos encontraram no túmulo da rainha Puabi, em Ur, uma palhinha de ouro com mais de um metro, que servia para beber de um recipiente comum.
  • O masgouf tem uma receita com milhares de anos. A maneira de preparar o masgouf (prato nacional do Iraque), em que a carpa se abre, se espeta em estacas e se assa na vertical ao lado de uma fogueira de lenha, tem raízes nos tempos sumérios. Os relevos assírios mostram pescadores e banquetes onde o peixe se prepara de forma muito parecida, o que aponta para uma continuidade de mais de 4000 anos.
  • Um livro de cozinha de Bagdade do século X é um testemunho da idade de ouro do islão. O Kitab al-Tabikh (Livro dos Pratos), escrito por Ibn Sayyar al-Warraq, contém mais de 600 receitas e é o mais antigo livro de cozinha árabe que chegou até nós. Descreve a luxuosa cozinha de corte dos califas abássidas, incluindo as regras de etiqueta à mesa, de higiene e de dietética, e mostra Bagdade como o centro gastronómico do mundo da época.
  • Kleicha: um biscoito com raízes babilónicas. O doce iraquiano kleicha tem origem na festa babilónica do ano novo, o Akitu. Nessa altura coziam-se bolinhos chamados qullupu como oferenda à deusa Ishtar. A forma e a simbologia mudaram, mas a tradição de cozer este tipo de doce nas festas manteve-se no Iraque sem interrupção durante milénios.
  • A palavra iraquiana para arroz, "timman", é um enigma linguístico único. Enquanto quase todo o mundo árabe usa a palavra "ruz" para arroz, os iraquianos dizem estritamente "timman". Os linguistas julgam que o termo tem raízes no acádico ou no sumério antigos (ou que estará ligado a uma variedade de arroz importada em tempos remotos).
  • A calda de tâmara como adoçante da Antiguidade. Antes de a cana-de-açúcar se difundir, o principal adoçante da Mesopotâmia era o dibis - uma calda espessa de tâmara. Os textos antigos descrevem a sua produção e o seu uso na cozinha e no fabrico de álcool. Ainda hoje é um ingrediente corrente no Iraque.
  • Os primeiros agricultores e a domesticação dos cereais. O Crescente Fértil, cujo coração é o Iraque de hoje, é o lugar onde a humanidade domesticou pela primeira vez o trigo e a cevada. Isso permitiu a passagem da caça e da recoleção para a agricultura sedentária, o que levou à invenção do pão e da cerveja.
  • O vinagre e a fermentação foram decisivos para sobreviver ao clima quente. Os antigos babilónios eram mestres na conservação de alimentos e produziam dezenas de tipos de vinagre de tâmara, de cerveja ou de uva. Essa tradição de sabores muito ácidos e de legumes em conserva manteve-se na cozinha iraquiana até hoje, onde a acidez equilibra muitas vezes a gordura dos pratos.

Aproveita o Iraque e a melhor comida iraquiana!

Dan Špaňhel

Dan Špaňhel

Sou o Dan. Escrevo apenas sobre o que provei pessoalmente - da banca de rua à estrela Michelin. Pela comida já percorri meio mundo e experimentei de tudo - o possível e até o impossível.

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