Cerveja palestiniana: a Shepherds da cervejaria Birzeit
Para o rótulo, a jovem cervejaria desenhou um pastor com o cajado - na região de Belém, na Palestina, é difícil imaginar motivo mais óbvio. Só que a Autoridade Palestiniana chumbou a proposta: a figura parecia-se demasiado com Jesus, e Jesus não tem lugar numa garrafa de cerveja. O pessoal da cervejaria levou três meses a convencer as autoridades de que um pastor é apenas um pastor.
A Shepherds é uma lager clara ao estilo pilsner de uma microcervejaria da cidade de Birzeit - uma das poucas cervejas feitas na própria Palestina.

A cerveja dos pastores
O nome inglês quer dizer pastores e o árabe جعة الرعاة diz o mesmo: cerveja dos pastores. Aponta para figuras que toda a gente conhece da história do Natal - foram os pastores dos campos à volta de Belém os primeiros a saber do nascimento do menino. O nome e o rótulo bebem da memória cristã da região onde a cervejaria fica: Birzeit é uma pequena cidade cristã perto de Ramallah e o fabrico palestiniano de cerveja é inteiramente coisa da minoria cristã, porque a maioria muçulmana recusa o álcool por motivos religiosos.
A segunda cervejaria de um país onde a cerveja não é hábito
A Birzeit Brewery foi fundada em 2013 por três irmãos da família Sayej; a primeira garrafa, essa, só foi vendida no verão de 2015, porque na Cisjordânia as licenças e a importação de equipamento demoram mais do que noutros sítios. Não foram os primeiros: duas décadas antes tinha nascido noutra aldeia cristã a cervejaria Taybeh, a primeira microcervejaria de todo o Médio Oriente - antecipou-se à primeira israelita em cerca de dez anos e na altura teve o apoio do próprio Yasser Arafat. A família regional completa-se com a libanesa Almaza e a jordana Petra, que apesar do nome se faz em Amã; do outro lado da fronteira corre depois a Goldstar israelita.
Fazer cerveja na Cisjordânia é, por si só, um exercício de logística: as matérias-primas europeias chegam aos portos israelitas em duas semanas, mas daí até às cervejarias palestinianas demoram mais uns meses, e as garrafas prontas ficam à espera nos postos de controlo, onde os soldados por vezes abrem até os barris - uma entrega a Jerusalém, vinte minutos de estrada, pode arrastar-se durante horas. A segunda Intifada mostrou como este negócio é frágil: fez cair as vendas da Taybeh em noventa por cento e a cervejaria manteve-se à tona com a venda de azeite. Mesmo assim, a Shepherds vende-se também em Israel e exporta-se para Itália, o Chile e os EUA - apesar de todas as barreiras, até ao outro lado do oceano.
A variante clara, a de referência, é acompanhada por uma ale âmbar e uma stout escura. A base pilsner faz com que um checo se sinta em casa logo ao primeiro copo; só não contes com cerveja em cada esquina - na Palestina, o álcool serve-se sobretudo nas cidades cristãs e nos estabelecimentos para turistas. E quem quiser ver a cerveja palestiniana em todo o seu esplendor pode ir a Taybeh, ao Oktoberfest de lá: realiza-se desde 2005 e, a acompanhar a cerveja, dança-se nele o dabke.
Uma garrafa com água em Belém
Bebi a Shepherds na parte turística de Belém, onde a garrafa fresca se vendia em conjunto com meio litro de água, tudo junto por 15 ILS (4 EUR). Soube exatamente ao que uma lager clara deve saber: limpa, com um amargor suave de lúpulo e sem surpresas exóticas - para um paladar checo, quase caseira. E depois a cerveja ainda me surpreendeu uma segunda vez: mais tarde vi a mesma garrafa numa loja israelita. Os postos de controlo atrasam os barris, não a sede.