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Boulettes: bolinhas mauricianas cozidas a vapor

Dan Špaňhel Maurícia Atualizado Sem comentários

À porta do bistro Kot Ti Baz, em Flic en Flac, uma panela de inox esteve o dia inteiro no passeio a deitar vapor. Umas divisórias em cruz repartiam-na em quatro, e em cada uma das quatro partes aquecia-se um tipo diferente de bolinhas: umas lisas e brancas, outras compridas e polvilhadas de verde, outras translúcidas com o recheio a espreitar através da massa, e um quarto tipo frito até ficar dourado. Ao lado, sobre um fogão, empilhavam-se mais panelas, e a senhora ao balcão ia arrumando as bolinhas em caixas brancas.

As boulettes são bolinhas de peixe, carne, camarão ou legumes ralados, quase sempre cozidas a vapor e vendidas à unidade - um clássico sino-mauriciano que a cozinha mauriciana oferece à porta dos bistros por toda a ilha.

Boulettes: quatro tipos de bolinhas juntas a cozer a vapor.
Boulettes: quatro tipos de bolinhas juntas a cozer a vapor.

Uma palavra francesa para um prato chinês

O nome é francês e mais nada: boulette é o diminutivo de boule, bola, ou seja, bolinha. Em francês chama-se assim a qualquer bola de carne ou de massa, seja qual for a maneira de a preparar, e a Maurícia limitou-se a pedir a palavra emprestada para um prato que a comunidade chinesa trouxe consigo. A variante mais típica, essa, tem nome chinês, niouk yen, e faz-se de chuchu ralado, a que na ilha chamam chou chou. As boulettes comem-se em toda a Maurícia e compram-nas todas as comunidades, não apenas os descendentes dos imigrantes da província de Cantão. O parente mais próximo vive na vizinha Ilha da Reunião: os bouchons de lá têm a mesma origem chinesa e a mesma panela a vapor, só que a massa é de farinha de trigo e mandioca e o recheio é de porco.

Os hacás, dois bairros chineses e o chuchu

Os imigrantes chineses chegaram à ilha em duas vagas. A primeira foi a dos cantoneses, no século XVIII; a segunda foi desencadeada pela Rebelião Taiping: em julho de 1860, o navio Ville de Paris desembarcou sete hacás vindos de Singapura e, até ao fim do século, eram eles a maioria da comunidade chinesa. Por isso, Port Louis teve durante muito tempo dois bairros chineses, o de cima cantonês e o de baixo hacá, que não se estimavam grande coisa - e hoje ambos vendem as mesmas bolinhas. Ninguém sabe dizer quem foi o primeiro a ralar chuchu para dentro da pasta de peixe. Sabe-se apenas que, na China, ninguém reconheceria o niouk yen: o chuchu não é lá um ingrediente corrente, e por isso o prato mais chinês da ilha é ao mesmo tempo um prato que a China desconhece. De uma panela de rua também se pode fazer uma empresa: o vendedor conhecido por Ah-Kong começou em 1997 com uma banca em La Louise e, onze anos depois, aquilo era uma sociedade por quotas.

Boulettes: bolinhas de carne em molho escuro ao lado de bolinhas amarelas.
Boulettes: bolinhas de carne em molho escuro ao lado de bolinhas amarelas.

O que levam dentro e como pedir boulettes

Massa no sentido europeu quase não existe aqui. A base da variante de chuchu é o legume ralado, que o amido de tapioca mantém ligado; o sabor vem do camarão seco e, por vezes, de um pouco de carne picada; a versão de carne é de vaca com gengibre e molho de soja escuro, ligada apenas pelo amido. Tudo se molda à mão e coze a vapor cerca de vinte minutos, até as bolinhas ganharem firmeza; a frigideira não entra em cena. Na cozinha checa há um truque parecido, o da canja de domingo: as bolinhas de fígado também não se ligam com farinha, mas com aquilo que levam dentro, e também se contam à unidade. Num só vendedor há dez ou mais tipos, e ninguém espera que escolhas apenas um.

Pede-se à unidade: duas, cinco, dez. Depois decide-se como. As boulettes comem-se de três maneiras: umas quantas como acompanhamento da massa cozida mine bouillie, uma porção maior coberta com caldo de galinha claro da panela que está mesmo ao lado, ou secas com molhos: pasta de malagueta picante, molho de alho, molho de soja e um punhado de cebola nova picada. O caldo é comida para comer sentado, a caixa seca é comida de mão, que se vai comendo pela rua fora. Um conselho para a primeira vez que pedires: quem pedir uma bolinha de cada tipo leva uma prova pelo mesmo preço e, ao fim de dez, já sabe qual há de pedir sozinho da próxima vez.

Boulettes: a preparação de uma dose para a caixa numa banca de rua.
Boulettes: a preparação de uma dose para a caixa numa banca de rua.

Uma caixa com molhos à porta do Kot Ti Baz

Comprei as boulettes precisamente naquela panela à porta do bistro Kot Ti Baz, no centro de Flic en Flac (ver Onde comer em Flic en Flac), já tarde à noite. Levei uma dose grande seca, com todos os molhos, pasta de malagueta e cebola nova - das três maneiras, foi esta a que mais me soube bem. As bolinhas de chuchu eram macias e levemente adocicadas, com um fundo de camarão que a princípio confundi com peixe; as de carne resistiam aos dentes e o gengibre só apareceu depois da malagueta, que entretanto já tinha assumido o comando. A dose grande com molhos custou 250 MUR (5 EUR). Nos mapas não encontras o bistro. A panela à porta encontra-se mais facilmente: basta seguir o vapor.

Dan Špaňhel

Dan Špaňhel

Sou o Dan. Escrevo apenas sobre o que provei pessoalmente - da banca de rua à estrela Michelin. Pela comida já percorri meio mundo e experimentei de tudo - o possível e até o impossível.

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