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Napolitaine: a bolacha mauriciana com glacê cor-de-rosa

Dan Špaňhel Maurícia Atualizado Sem comentários

Há um tom de rosa que a natureza não usa em nada que se coma. As framboesas, a melancia ou a goiaba não chegam lá; é a cor da pastilha elástica, do brinquedo de plástico e da montra de uma padaria na Maurícia. Quem o vê uma vez não precisa de ementa nem de dicionário - aponta com o dedo.

A napolitaine é uma bolacha da cozinha mauriciana: dois discos redondos de massa quebrada amanteigada, entre eles uma camada fina de doce de fruta e por cima um glacê duro exatamente daquele rosa. Sem espuma, sem creme, sem enfeite. Três camadas que se aguentam graças ao açúcar e um nome francês que quer dizer napolitana.

Napolitaine: a bolacha mauriciana com glacê de açúcar cor-de-rosa.
Napolitaine: a bolacha mauriciana com glacê de açúcar cor-de-rosa.

Onde se faz a napolitaine e porque se chama assim

A napolitaine é um doce de toda a Maurícia: não tem cidade de origem nem variantes regionais, faz-se em todas as padarias da ilha e até os supermercados a vendem embalada. A ilha só a partilha com a vizinha Ilha da Reunião, onde os blogues locais a apresentam como sua e alguns acrescentam logo que veio da Maurícia - quando e em que sentido, ninguém sabe. Nas Seicheles e em Madagáscar não vale a pena procurá-la e em França só a encontras nalgumas pastelarias da diáspora mauriciana em Paris. A cozinha francesa, de onde a ilha trouxe a massa amanteigada e o nome, não conhece esta bolacha. Quanto ao nome, é tudo simples e ao mesmo tempo está por resolver: napolitaine quer dizer napolitana em francês, mas porque é que na Maurícia se chama assim justamente a uma bolacha com doce, nenhuma fonte mauriciana explica. No século XIX, os pasteleiros franceses punham o rótulo "à la napolitaine" em quase tudo o que fosse doce, incluindo um bolo e um gelado que ninguém inventou em Nápoles, e a ilha terá adotado a moda, palavra incluída.

Manteiga, doce e açúcar: de que é feita a napolitaine

A napolitaine não tem inventor, data nem padaria que se assuma como a primeira; as fontes mauricianas falam da pastelaria colonial francesa e britânica e de uma receita que passa de geração em geração dentro das famílias. Ninguém data a primeira napolitaine, e por isso a história desta bolacha cabe numa frase: foi-se fazendo até estar em todo o lado. A massa é daquelas em que não se pode poupar: na receita do jornal Le Mauricien, para 250 gramas de farinha vão 175 gramas de manteiga, estende-se a três milímetros e vai ao forno de maneira a que os discos não ganhem cor - a napolitaine deve ficar pálida, porque a cor fica por conta do glacê. O doce entre os discos costuma ser de goiaba ou de morango, conforme a família e a padaria, e põe-se apenas o suficiente para colar as duas metades. O glacê é açúcar em pó desfeito em água com uma gota de corante vermelho; o rosa é a tradição, mas os pasteleiros não hesitam em usar azul, amarelo e cor de laranja. A tradição da cor é aqui mais flexível do que a tradição da manteiga. Na Chéquia, um glacê tão duro conhecemo-lo dos biscoitos de especiarias - na Maurícia aguenta o ano inteiro e está numa bolacha, não num boneco de massa.

A napolitaine é mais um lanche do que uma sobremesa de fim de refeição, como a rasgulla frita ou o sagoo au lait de leite: pertence ao chá da tarde, à mochila da escola e às festas, onde se juntam dez num prato, todas igualmente cor-de-rosa. Numa lata fechada aguenta vários dias, o que faz dela uma bolacha que se compra sem receio para ter em casa. A cor do glacê não revela o que está lá dentro - quem quer goiaba e não morango tem de perguntar no balcão, porque por fora são exatamente iguais.

A napolitaine em Quatre Bornes

Comprei a minha napolitaine numa padaria pequena em Quatre Bornes e comi-a logo ali à porta, tirando-a de um saco de papel, enquanto na montra atrás de mim estavam outras igualmente cor-de-rosa. À primeira dentada o glacê estalou e partiu-se; por baixo, a bolacha era quebradiça e seca, com uma manteiga que se notava mais do que o açúcar, e o doce do meio funcionava mais como cola do que como sabor - fino, doce, sem nenhuma acidez. Era maior do que se espera de uma bolacha e deu perfeitamente para um lanche pequeno. Custou 40 MUR (0,80 EUR).

Dan Špaňhel

Dan Špaňhel

Sou o Dan. Escrevo apenas sobre o que provei pessoalmente - da banca de rua à estrela Michelin. Pela comida já percorri meio mundo e experimentei de tudo - o possível e até o impossível.

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