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Tekwa: o pastel doce mauriciano de ervilha amarela

Dan Špaňhel Maurícia Atualizado Sem comentários

Comprei aquilo sem fazer ideia do que era. No mercado estava uma pilha de discos dourados, cada um no seu saco, ainda quentes, e só à primeira dentada é que descobri o que tinham lá dentro. Estas compras às cegas correm bem uma em cada duas vezes. Esta correu na perfeição.

O tekwa é um pastel frito de massa fina com um recheio doce e esfarelado de ervilha amarela cozida e moída, açúcar e funcho - a cozinha mauriciana serve-o quente, à mão, como merenda para acompanhar o chá. Ervilha e açúcar na mesma frase parecem uma gralha. Não são.

Tekwa: pastel frito recheado com ervilha amarela doce.
Tekwa: pastel frito recheado com ervilha amarela doce.

De onde vem o nome do tekwa e porque é que na Índia não leva recheio

O nome chegou de barco, com as pessoas. Depois de 1834, os donos das plantações da Maurícia contrataram trabalhadores vindos da Índia, boa parte deles do Bihar, e eles trouxeram consigo a thekua: uma bolacha doce e mais dura, de farinha, ghee e açúcar de cana, moldada numa forma de madeira e ligada à festa do deus Sol. A palavra vem de um verbo que significa bater, cunhar. Na ilha sobrou dela apenas o nome: o tekwa mauriciano não é moldado em forma nenhuma, mas ganhou um recheio que o modelo do Bihar nunca teve. É um prato nacional, não partilhado - nem na vizinha Reunião nem nas Seicheles há quem o venda com este nome, porque aí a migração indiana não deixou marcas semelhantes. Os parentes do tekwa estão antes no subcontinente: a puran poli indiana é um pão achatado cozinhado na chapa e recheado com dal doce e a matar kachori é um pastel frito de ervilha, só que salgado e temperado. E na própria Maurícia partilha a ervilha amarela com o gâteau piment, a bolinha frita salgada feita inteiramente de massa de ervilha, e com o dholl puri, de que falo já a seguir.

A história do óleo: como o dholl puri nasceu do tekwa

O dholl puri é hoje o prato que a Maurícia mostra ao mundo como seu. Quase nenhum turista conhece o tekwa. E, no entanto, segundo uma história contada por um site mauriciano sobre a origem do dholl puri, a ordem é a inversa: o dholl puri teria nascido no início do século XX como uma versão poupada do tekwa - a mesma massa, a mesma ervilha, só que sem fritura, porque na chapa poupa-se o óleo. A história chega a apontar o nome do inventor, mas ninguém mostra uma fonte primária, e por isso fica aqui como aquilo que é: uma história. O resto é simples: os fritos doces de leguminosas chegaram com os trabalhadores indianos e foi deles que o tekwa evoluiu, na ilha, até à forma de hoje. Se a história fosse verdadeira, o prato nacional da ilha seria apenas a versão mais barata de um prato que nacional não é. Acontece à história mais vezes do que ela gostaria de admitir.

Tekwa: recheio doce de ervilha com funcho.
Tekwa: recheio doce de ervilha com funcho.

Ervilha, açúcar e funcho: o que leva dentro e quando se come

O papel principal cabe à ervilha amarela partida. Coze-se até ficar mole, mói-se quase a pó e adoça-se; ao recheio esfarelado juntam-se sementes de funcho e, muitas vezes, coco ralado. A massa é de farinha de trigo, nalgumas famílias amassada com a água de cozer a ervilha, noutras com manteiga e leite em pó; frita-se depressa, para ficar fina e não absorver gordura. Dois sites mauricianos dão duas receitas que não coincidem quanto ao funcho, ao coco nem à manteiga - só concordam numa coisa: o resultado é tekwa. Para quem cresceu na Chéquia, a comparação é inevitável: é o puré de ervilhas da cantina da escola, mas doce, seco e escondido dentro de uma bola de Berlim. Quem em criança comeu esse puré com cebola precisa de um instante até o cérebro aceitar que aquilo sabe a sobremesa.

O tekwa é comida do chá da tarde. As famílias mauricianas fritam-no para o goûter e, no mercado de Quatre Bornes, já estava lá de manhã, quente, cada peça no seu saco, que serve ao mesmo tempo de guardanapo. Come-se à mão, sem talheres e sem molho, e sabe melhor enquanto está quente. Quem não o encontrar no mercado pelo nome, que o procure pelos sacos: discos dourados embrulhados um a um. No Diwali aparece depois a versão de festa, o tekwa patat, de massa de batata-doce e recheio de coco.

Tekwa: peças quentes embrulhadas uma a uma para venda.
Tekwa: peças quentes embrulhadas uma a uma para venda.

Um saco às cegas em Quatre Bornes

Comprei o tekwa no mercado de Quatre Bornes, de manhã, numa banca onde estavam dezenas de peças em sacos, lado a lado. A massa era fina e mole, quase sem gordura, o recheio solto e leve, doce na medida certa, e o funcho trouxe-lhe um tom ligeiro de anis que combina com a ervilha melhor do que eu esperava. Duas peças custaram 25 MUR (0,50 EUR). Na Maurícia provei muitos pratos sobre os quais já sabia alguma coisa de antemão. O sabor novo mais interessante de toda a viagem foi aquele sobre o qual não sabia nada. Gostava de o comer também na Chéquia.

Dan Špaňhel

Dan Špaňhel

Sou o Dan. Escrevo apenas sobre o que provei pessoalmente - da banca de rua à estrela Michelin. Pela comida já percorri meio mundo e experimentei de tudo - o possível e até o impossível.

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