Beijinhos de amor: os beijos doces de Lousada
Três ovos inteiros e mais quinze gemas - é o que manda a receita oficial do concelho para pouco menos de seiscentos gramas de massa. A quem já pôs as mãos na massa fica uma única pergunta na cabeça: para onde foram todas aquelas claras? A resposta tem alguns séculos e passa pelo vinho e por camisas engomadas.
Os beijinhos de amor são pequenos bolinhos de gema cobertos de açúcar, feitos na vila de Lousada, a cerca de quarenta quilómetros do Porto - e estão entre as coisas mais doces que a cozinha portuguesa sabe fazer.

Porque é que o doce tem nome de beijo
O nome não precisa de grandes explicações: um beijinho é um beijo pequeno. O resto explica-o a câmara de Lousada com alguma poesia - o bolinho derrete-se na boca devagar e com delicadeza, tal como um beijo - e junta-lhe uma lenda que casa o ofício da doçaria com uma história de amor. Só que a lenda não tem nomes, nem data, nem enredo, e o que dela sobra é sobretudo a palavra amor. O beijo é, aliás, uma metáfora internacional da doçaria: as pastelarias italianas fazem os baci di dama, beijos de senhora, e no Brasil chamam beijinho a uma bolinha de coco com leite condensado que não tem nada em comum com o doce de Lousada a não ser o nome. Os beijinhos de amor, esses, são coisa de um concelho só: fazem-nos pequenas oficinas espalhadas pelas freguesias de Lousada, sobretudo em Torno, e com este nome não os encontras em mais lado nenhum do país.
As gemas que sobraram aos conventos
As quinze gemas por fornada são herança de um tempo em que as claras tinham vida própria: com elas se clarificava o vinho e se engomava a roupa, e aos conventos ficavam montanhas de gemas - que as freiras, com o açúcar vindo das colónias, transformaram em toda uma família de doces conventuais, onde entram também os famosos pastéis de nata. Os beijinhos de amor são o ramo rural e duradouro dessa família. Nem por isso lhes veio grande fama: em 2019 Lousada inscreveu os seus beijinhos nas 7 Maravilhas Doces de Portugal, onde a categoria da doçaria de longa duração reuniu 91 candidatos. Não ficaram entre as sete maravilhas doces anunciadas. Oficialmente, as maravilhas aconteceram noutro sítio.

Uma casca de açúcar e uns meses de vantagem
O resto da receita é modesto: farinha, açúcar, limão, uma pitada de sal. O essencial vem depois do forno - ainda quentes, os bolinhos levam por cima uma calda de açúcar espessa, que ali endurece. A casca fina de açúcar guarda lá dentro um miolo húmido e de um amarelo carregado e dá aos bolinhos uma validade de vários meses - por isso os beijinhos se vendem a peso e em pacotes, e por isso são um dos poucos doces portugueses que aguentam a viagem dentro de uma mala sem se estragarem. A cozinha checa conhece o outro extremo desta equação: com as claras que sobram fazem-se suspiros.

A que sabe um beijo de Lousada
Comprei os meus beijinhos de amor num pequeno mercado no Porto, num pacote da Casa Lemos, que os faz desde 1841 - talvez mesmo diretamente ao produtor, embora num mercado pequeno isso seja difícil de perceber. Só ao escrever este texto é que descobri que a Casa Lemos, um dos maiores produtores dos beijinhos de Lousada, não fica em Lousada, mas já do outro lado do limite do concelho, em Amarante; o doce mais lousadense da minha viagem nasceu, afinal, ali ao lado. A casca estala baixinho à dentada e depois o bolinho limita-se a derreter - o miolo é húmido, cheio de gema e muito doce, com o limão a equilibrá-lo. Com um cálice de vinho do Porto combina na perfeição, o que não é receita de Lousada, apenas dica minha. O pacote prometia vários meses de validade. Não teve hipótese de os cumprir.