Mercado Azul em Varna: o mercado junto ao relógio e a ruela das avós
No Google Maps chama-se The Blue Market, os búlgaros tratam-no por Синия пазар e e nas minhas fotos ele tem um telhado cor de laranja. O azul procurei-o durante muito tempo no local - acabei por encontrá-lo numa grade de plástico com hortelã, na banca de uma das avós.
O Mercado Azul (em búlgaro: Синия пазар, oficialmente Пазар Часовника) é um pequeno mercado municipal no centro de Varna, junto à catedral e ao relógio da cidade: lá dentro, mesas com fruta e legumes; à volta, o passeio onde as avós vendem o que a horta lhes dá. Comparado com os mercados agrícolas, é um mercado pequeno e, num passeio pela cidade, uma paragem curta. Mas quem quiser ver com que se cozinha no outono na cozinha búlgara tem aqui um observatório melhor do que no maior pavilhão da cidade.

Porque se chama Azul ao mercado do Relógio
Oficialmente, o mercado deve o nome ao vizinho: Пазар Часовника, o mercado do Relógio, por causa do relógio da cidade junto à Catedral da Assunção de Nossa Senhora, a dois passos da rua Ruse, onde as mesas estão. Só que quem lhe chama assim é praticamente só quem o gere, a empresa municipal Pazari, responsável por uma dezena de mercados em Varna. A alcunha Mercado Azul nasceu, segundo a mesma empresa, na modernização de 2009, quando as bancas antigas deram lugar a mesas novas de policarbonato azul - não há lenda nenhuma por trás, apenas a cor do plástico. O ano assenta numa única fonte, a própria Pazari; que o nome vem das mesas e não da história é confirmado também pelos anúncios e pelos jornais locais, que quase não usam a palavra Часовника.
Em Varna, o Mercado Azul é um dos mais pequenos. O principal mercado da cidade é o Централен, pelo nome antigo, o Kolhozen pazar, o mercado do colcoz, onde funcionam os mercados agrícolas e, num pavilhão à parte, também o mercado do peixe; o Chataldzha é conhecido pelas flores e o resto são mercados de bairro. Face a eles, o Mercado Azul tem uma única vantagem, a localização: fica num troço de rua fechado ao trânsito entre a catedral e o relógio, por isso passa-se por ele a caminho de outro sítio, e não de propósito.

As mesas dos produtores e o passeio das avós
Nas mesas vende-se o que amadureceu: uvas, figos, romãs, tomates, nozes - e, segundo a lista de quem gere o mercado, também roupa, lembranças, mel e milho cozido pelo meio. Parte dos vendedores são os próprios produtores, производители, que pagam menos pelo lugar do que os revendedores. Mas o mais interessante passa-se no passeio à volta: é ali que as avós que não têm mesa, só horta, espalham a mercadoria por mesinhas dobráveis e copinhos. Ovos, molhos de ervas, crisântemos, miolo de noz, urtigas, fruta da árvore das traseiras. É a mesma economia do letreiro "Vendem-se ovos" no portão de uma aldeia, apenas transportada para o centro de uma capital de distrito. A Bulgária tem até um nome para isto, бабите, as avós, e leva-o a sério: em 2024 o Ministério da Agricultura quis deixar entrar nos mercados agrícolas apenas agricultores registados e uma associação de consumidores saiu em defesa das avós, dizendo que os copinhos delas não põem ninguém em risco e que a proibição só faria com que passassem a vender uma rua mais adiante. Que estatuto têm as de Varna, isso não consegui apurar.

Hinap, o fruto a que os estrangeiros chamam tâmaras chinesas
Durante todo o tempo chamei o nome errado ao fruto por causa do qual voltei àquele passeio. Tratava-o por tâmaras chinesas, que é como o descreve metade das línguas; os búlgaros têm uma palavra própria, хинап, popularmente dzhindzhifka, e a botânica chama-lhe jujuba, Ziziphus jujuba. O hinap é o fruto de uma árvore que precisa de verões secos e quentes e de solo pedregoso, por isso na Bulgária se cultiva no sul e no litoral - os arredores de Varna estão entre as principais zonas - e a época dele vai do fim de setembro ao fim de outubro, precisamente nas semanas em que lá estive. Verde, o fruto é amarelo-esverdeado, estala ao dente e sabe a maçã pequena, com um travo adstringente no fim; maduro, fica castanho, enruga-se e é doce como uma tâmara, daí a descrição estrangeira. Quem quer doce leva os castanhos; quem quiser uma coisa estaladiça no saco, os verdes. Ao hinap as avós juntam o que estiver na época: nozes acabadas de descascar, no outono as mais baratas do ano, e urtigas, que os búlgaros apanham sobretudo na primavera e que em outubro são mais um complemento.

Um pacote de hinap da rua Ruse
Estive em Varna em outubro e a ruela principal do Mercado Azul estava meio vazia: a época do mercado tinha acabado com o verão, a do hinap estava a começar. Nas mesas ocupadas comprei figos e uvas; os vendedores não falavam inglês e não fez falta, os preços estavam em etiquetas escritas à mão - figos a 3,50 BGN (1,80 EUR) o meio quilo - e o resto resolveu-se com o dedo e um sorriso. Lá dentro, não achei nada de especial. Cá fora, sim. As avós estavam sentadas em cadeiras de plástico junto a mesinhas dobráveis com toalha aos quadrados, entre os copinhos de figos e cebolas havia uma jarra com crisântemos, conversavam animadamente umas com as outras e cada compra deixava-as contentes. Voltei lá várias vezes nos passeios por Varna e de cada vez trouxe pelo menos um pacote de hinap verde, 100 g por 1 BGN (0,50 EUR). Se o mercado tivesse o nome daquilo que me fazia lá voltar, não se chamaria Azul nem do Relógio. Chamar-se-ia Mercado da Avó.
The Blue Market