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Canelé: o doce de Bordéus com crosta de caramelo

Dan Špaňhel França Atualizado Sem comentários

Antes de nascer uma sobremesa em Bordéus, alguém tem de polir cobre. As pequenas formas de cobre, de paredes caneladas, untam-se com cera de abelha e manteiga, e só depois se deita nelas uma massa que, por si só, não interessaria a ninguém.

O canelé (em francês: cannelé) é um cilindro canelado do tamanho de um oveiro, com uma crosta escura de caramelo e um interior húmido, quase de pudim, com rum e baunilha - uma especialidade de Bordéus que hoje toda a cozinha francesa conhece. E a primeira coisa a perceber: aquela cor no limite do queimado não é um defeito. Quem leva um canelé claro para acompanhar o café leva um canelé mal cozido.

Canelé: a forma canelada e a crosta caramelizada de um doce francês.
Canelé: a forma canelada e a crosta caramelizada de um doce francês.

De onde vem o nome do canelé e até onde chegou a partir de Bordéus

O nome veio da arquitetura: o francês canneler significa abrir caneluras e cannelure é a canelura, o sulco vertical de uma coluna antiga, por isso canelé quer dizer literalmente "canelado" e traz o nome da forma. Em Bordéus escreve-se com um só n - foi assim que a confraria local de pasteleiros registou a grafia canelé como marca em 1985 - e eu fico-me pela versão da cidade.

O canelé é um doce local de Bordéus que, a partir dos anos oitenta, se espalhou por toda a França - pelas mãos dos padeiros parisienses e das bancas das estações - e hoje vendem-se em França mais de quarenta milhões por ano. No Japão pegou de tal maneira que até as cadeias de lojas de conveniência o vendem ao lado dos onigiri. E, no entanto, ninguém lhe encontrou um parente próximo; a técnica da massa líquida, do cobre e da cozedura longa é só dele. O mais próximo que tem é um vizinho de forma, a madeleine, que também usa a forma como assinatura - só que, em vez de crosta, exibe uma bossa.

Quem cozeu o primeiro canelé: as freiras, a corporação ou ninguém

Bordéus gosta de contar esta lenda: as freiras do convento das Anunciadas coziam canelés com farinha recolhida no porto e com as gemas que os produtores de vinho lhes davam, porque precisavam das claras para clarificar o vinho. Só que, quando o serviço do património se mudou para o edifício do antigo convento, os arqueólogos não encontraram lá o menor vestígio de formas caneladas. Aliás, a mesma história das gemas que sobravam depois de usadas as claras conta-se em Portugal a propósito dos pastéis de nata - e aí existe pelo menos um manuscrito conventual que a apoia.

O convento desapareceu com a revolução, em 1791, e a primeira menção escrita ao canelé só surge em 1937 - pelo meio ficam quase cento e cinquenta anos em que ninguém escreveu uma linha sobre ele. O que está documentado é outra história: a corporação de padeiros a que chamavam canauliers, que tinha estatutos em Bordéus desde 1663 e cozia uns canaules, pão de farinha e gemas. A corporação rival dos pasteleiros conseguiu impor-lhes que não pusessem leite nem açúcar na massa. Se o canelé de hoje lhes deve o nome, como se costuma dizer, faz-se hoje exatamente com aquilo que estava proibido aos seus antepassados. O canelé moderno, com rum e baunilha, só aparece nas pastelarias de Bordéus nos anos trinta do século passado; tudo o que for mais antigo é lenda.

Massa líquida, cobre e duas temperaturas

A massa é quase a das panquecas, aquela que qualquer um bate em casa ao domingo: leite, farinha, açúcar, gemas, manteiga, rum e baunilha. A diferença está no tempo e no recipiente. A massa tem de descansar um a dois dias no frigorífico, senão sobe no forno acima do rebordo e racha; e o cobre untado com cera de abelha conduz o calor com tal violência que a superfície começa a caramelizar logo nos primeiros minutos. Coze-se em duas fases - primeiro pouco tempo em forno muito quente, à volta dos 230 graus, depois muito tempo a temperatura baixa -, para que a crosta escureça quase até ao preto enquanto o interior fica mole. A forma de silicone fica-se por metade disso: o canelé sai mais claro e sem brilho, e em Bordéus não o aceitam como canelé.

Vende-se em três tamanhos, da peça clássica de uns sessenta gramas ao bocado de uma só dentada, e nas pastelarias embalam-no muitas vezes à dúzia; com o café à tarde, com um sauternes doce depois do jantar, na versão salgada com queijo ou presunto para o aperitivo. O melhor é comê-lo morno, poucas horas depois de sair do forno. O frigorífico não é sítio para ele: a crosta amolece lá dentro e, no dia seguinte, o canelé já mal se aguenta na mão. Por isso o canelé não se compra para levar para casa, compra-se para hoje - e, na pastelaria, escolhe o mais escuro do tabuleiro.

O postigo da pastelaria Cassonade

Provei o canelé em Bordéus, na Cassonade, uma pastelaria especializada onde nos podemos sentar lá dentro, mas que também vende ao postigo de rua, e assim sai-se com o saquinho direto para um passeio pela cidade. A crosta estalou logo ao primeiro aperto dos dedos e sabia a caramelo que acabava num amargo leve; o interior estava húmido e fresco como um pudim espesso, o rum ficou nele apenas como aroma e a baunilha só se fez sentir depois de engolir. Um canelé pequeno, de rum e baunilha biológica de Madagáscar, custava cerca de 1 EUR e, consoante o tamanho e os ingredientes, o preço subia. Levando vários de uma vez, cada um saía mais barato e, como um canelé nunca chega, foi o único desconto em Bordéus em que não tive de pensar.

Dan Špaňhel

Dan Špaňhel

Sou o Dan. Escrevo apenas sobre o que provei pessoalmente - da banca de rua à estrela Michelin. Pela comida já percorri meio mundo e experimentei de tudo - o possível e até o impossível.

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