Rhumerie de Chamarel: visita e prova numa destilaria da Maurícia
Vai-se à destilaria por causa de um espetáculo: a máquina agarra a cana, esmaga-a e dali sai o sumo que há de dar rum. Cheguei em dezembro e a linha de moagem estava parada - desligada, aberta, em plena limpeza. A razão só a descobri mais tarde: a cana colhe-se aqui de julho a dezembro e uma destilaria que só destila sumo fresco não tem nada para moer no fim da época.
A Rhumerie de Chamarel é uma destilaria familiar nas montanhas do sudoeste da Maurícia que faz rum exclusivamente a partir do sumo da sua própria cana-de-açúcar e abriu aos visitantes toda a produção, do campo ao copo. Nesse dia os alambiques trabalhavam, o guia também, e a moenda parada não estragou nada aos oito copos que fecharam a visita.

De quem vem o nome Chamarel e quem destila aqui o rum
Chamarel é antes de mais uma aldeia e a marca limitou-se a pedir-lhe o nome emprestado. A aldeia deve-o aos irmãos franceses de Chazal de Chamarel, que aqui receberam terras no final do século XVIII. Nelas experimentou a cana, o algodão, o café e o índigo, nada disso resultou e em 1815 regressou definitivamente a França. A destilaria leva assim o nome de um homem a quem, como plantador, correu tudo mal na Maurícia - um departamento de marketing teria escolhido outra biografia para o rótulo, só que a aldeia não perguntou a ninguém.

A destilaria em si é dois séculos mais nova. A família Couacaud comprou em 1996 a propriedade Domaine de l'Exil, 220 hectares de cana a trezentos metros de altitude, e só em 2008 começou a destilar rum: a cana cresceu aqui doze anos antes do primeiro destilado. Não foi por preguiça. O rum de sumo fresco de cana esteve muito tempo proibido na ilha e a lei só o autorizou em 2006 - explico o porquê no artigo sobre o rum mauriciano. A Chamarel é, portanto, uma das destilarias mais novas da Maurícia e uma das poucas que cultivam a própria cana; a maior parte do rum da ilha nasce do melaço. O espaço foi desenhado por um arquiteto mauriciano a pensar desde o início nos visitantes: madeira, pedra e água em vez de um pavilhão de chapa. Na ilha, também a Labourdonnais, a norte, a Saint Aubin, a sul, ou o museu do açúcar L'Aventure du Sucre organizam visitas com prova. Em Chamarel, porém, o campo e o copo ficam no mesmo terreno.

Do campo à moenda em quatro horas
A cana-de-açúcar colhe-se em Chamarel à mão e os campos não se queimam antes da colheita. As canas cortadas têm de chegar à moenda no prazo de quatro horas, senão o sumo começa a fermentar sozinho e o aroma fresco e herbáceo, que é a razão de tudo isto, desaparece. São essas quatro horas que explicam porque é que a destilaria fica no meio dos seus próprios campos e não junto ao porto. O sumo fermenta, destila-se em alambiques de cobre e também em coluna e parte do destilado vai para barricas de carvalho, onde o calor tropical o faz amadurecer mais depressa do que na Europa. Quem já levou o bagaço das suas uvas ao alambique da aldeia conhece o princípio: destila-se aquilo que se cultivou e a fruta tem de se notar no copo. Aqui, em vez das uvas, nota-se a cana.

A visita segue a ordem da produção: o guia detém-se com o grupo junto da moenda, dos tanques de fermentação e dos alambiques, explica em cada passo o que está a acontecer e responde a perguntas. Tudo acaba numa mesa comprida cheia de garrafas. A prova está incluída no bilhete; o rum envelhecido e o que amadurece em diferentes tipos de barrica servem-se com suplemento. No recinto ficam a loja da destilaria e o restaurante L'Alchimiste, aberto à hora de almoço. A tabela de preços muda e cada fonte indica valores diferentes, por isso confirma-a antes de partires. Há autocarro para Chamarel, mas passa poucas vezes; a maioria das pessoas chega de táxi ou de carro alugado e junta a destilaria às dunas coloridas e à cascata, que ficam ali ao lado.


Oito copos no fim da época
Em Chamarel percorri a destilaria com um grupo pequeno e um guia que, junto da moenda parada, descrevia o barulho que ali haveria em plena época. No fim estavam alinhadas oito amostras: rum branco, rum envelhecido, rum com baunilha, rum com uma mistura de especiarias e quatro licores - de baunilha, de café, de coco e de tangerina. O branco cheirava a cana fresca, o envelhecido tinha ganho suavidade, baunilha e madeira da barrica, os licores levavam menos álcool e mais açúcar e o de café destacava-se entre todos. Por um suplemento de 100, 200 ou 300 MUR (2 - 6 EUR) servia-se rum envelhecido premium de barricas diferentes. Na loja a gama base saía cerca de um terço mais barata do que nos supermercados Winners e as garrafas premium custavam o mesmo. O bilhete custou 450 MUR (9 EUR) e a visita com prova demorou entre uma e duas horas. O homem que deu o nome a tudo isto desistiu da cana neste monte e foi-se embora. Dois séculos depois, é dela que aqui corre rum - e em dezembro, quando a colheita acaba, também a água de lavar a moenda.
Rhumerie de Chamarel