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Limoncello: o licor de limão de Sorrento e Amalfi

Dan Špaňhel Itália Atualizado Sem comentários

No rótulo, o limoncello parece uma herança de bisavós: letras douradas, limões, uma data qualquer. A história documentada é mais sóbria. O primeiro pedido de registo de uma marca de licor de limão foi feito por um empresário de Capri em 1988 e a primeira empresa a produzi-lo em grande escala nasceu em Sorrento em 1991. O licor que na costa aparenta ter trezentos anos é mais novo do que eu.

O limoncello é um licor doce de limão da cozinha italiana, vindo da costa da Campânia: a casca amarela dos limões fica a macerar em álcool, adoça-se com xarope e o resultado, com cerca de trinta por cento de álcool, bebe-se gelado, num copo pequeno e depois da refeição.

Limoncello: o licor de limão de Sorrento com denominação protegida.
Limoncello: o licor de limão de Sorrento com denominação protegida.

O que a palavra limoncello significava antes de ser um licor

O nome é um simples diminutivo de limone, limão, e como palavra é bem mais antigo do que a bebida: os dicionários registam-no desde o século XIV, só que nessa altura significava um limão pequeno, e no final do século XVII o dicionário da Accademia della Crusca explica-o como uma água de limão com que se tratavam doentes. O limoncello é originário da península de Sorrento, de Capri e da costa amalfitana, ou seja, de um único troço da Campânia; o resto de Itália bebe-o hoje como digestivo nacional e, com 9,5 milhões de litros vendidos por ano, é o licor doce mais vendido do país. Faz-se da Ligúria à Sicília: nas Cinque Terre, dos socalcos íngremes sai um limoncino mais fresco, e quem lá pedir limoncello é logo corrigido à mesa; na Sicília preparam-no com limões de Siracusa. Na família, os parentes mais próximos são o arancello de laranja e o calabrês liquore al cedro, feito da cidra de casca grossa: o mesmo processo, outro fruto.

Três lendas e uma data

Capri conta a história de Maria Antonietta Farace, que no início do século XX servia aos hóspedes da sua pensão um licor feito com limões do próprio quintal; a família Massa, em Sorrento, guarda uma receita caseira de 1890; Amalfi e Sorrento juntam ainda os monges de um convento e os pescadores que se aqueciam com o licor de madrugada. Três lugares vizinhos na mesma costa, três versões, cada uma delas a única verdadeira, e nenhuma tem um documento que a comprove - ninguém sabe datar a primeira garrafa de limoncello. A única data firme é 1988, quando Massimo Canale, descendente de Maria Antonietta Farace, registou a marca Limoncello di Capri e começou a engarrafar para bares e lojas. A proteção, porém, não está onde o rótulo dá a entender. A IGP que aparece também na garrafa da minha fotografia não é do licor, mas do limão: tanto o de Sorrento como o de Amalfi a têm desde a viragem do milénio. O licor só tem indicação geográfica protegida desde 2016, sob a designação oficial e sóbria de Liquore di Limone di Sorrento, e tem de ter pelo menos 30 por cento de álcool; ao de Amalfi bastam 25. Uma costa, dois níveis de exigência oficial.

Limoncello: a oferta de uma loja da especialidade.
Limoncello: a oferta de uma loja da especialidade.

Casca, álcool e nada de branco

A protagonista é a casca, ou melhor, só a sua camada amarela. O albedo branco por baixo é amargo, por isso os limões de Sorrento se descascam com uma casca mais fina do que a de uma maçã, e quem alguma vez raspou limão para a massa de um bolo e raspou fundo demais conhece esse amargor. A casca amarela fica de uma semana a um mês em álcool puro, até este lhe tirar o óleo e a cor, e só depois entra o xarope de água e açúcar, que baixa a graduação para os tais trinta por cento. Os limões crescem debaixo de esteiras de palha a que chamam pagliarelle: fazem sombra, atrasam o amadurecimento e transformam a casca no que o fruto tem de mais valioso. Sorrento tem o oval ovale di Sorrento, Amalfi o alongado sfusato amalfitano, e o fruto que se macera nota-se depois na garrafa - o limoncello barato das lojas de lembranças corrige a cor com corante e o aroma com aromatizante, coisa que as versões protegidas não podem fazer.

Bebe-se acabado de sair do congelador, porque o álcool não o deixa congelar, apenas engrossar, e num copo pequeno e gelado, um ou dois goles depois da refeição; ninguém na costa duvida de que ajuda a digestão, só que até hoje nenhum médico o confirmou. Nos últimos anos apareceu também o limoncello spritz, com prosecco e gelo, mais novo do que o próprio licor e bebido à tarde nas esplanadas. Na loja, lê o rótulo: quem quer limão e não corante procura Liquore di Limone di Sorrento ou o equivalente amalfitano; a garrafa de cerâmica de Vietri com limões pintados é bonita, só que ali se paga mais pelo barro do que pelo conteúdo.

Limoncello spritz.
Limoncello spritz.

A garrafa da praça de Amalfi

Comprei a minha garrafa em Amalfi, na praça ao fundo das escadarias da catedral, a poucos passos da pastelaria onde tinha comido uma delizia al limone. Em casa, acabado de sair do congelador, foi um gole espesso, quase xaroposo: primeiro o açúcar, logo a seguir a casca pura, como a conheces de um limão acabado de descascar, e o álcool só se fez sentir na garganta, um instante depois. O spritz da segunda fotografia bebi-o em Sorrento, num bar pequeno com esplanada sobre o mar, e era outra bebida: leve, amarga e doce ao mesmo tempo, com uma acidez agradável.

Dan Špaňhel

Dan Špaňhel

Sou o Dan. Escrevo apenas sobre o que provei pessoalmente - da banca de rua à estrela Michelin. Pela comida já percorri meio mundo e experimentei de tudo - o possível e até o impossível.

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