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Txakoli: o vinho branco ligeiramente frisante do País Basco

Dan Špaňhel Espanha Atualizado Sem comentários

O empregado de balcão, em San Sebastián, pegou numa garrafa verde, levantou-a acima da cabeça e serviu. O fio de vinho percorreu um bom meio metro antes de cair no copo pousado no balcão, e ninguém à volta se virou, porque ali é assim que se serve cada copo. O turista, nesse momento, pergunta-se se aquilo vai correr bem. Os bascos perguntam-se se vai ganhar agulha.

O txakoli é um vinho branco leve, seco e ligeiramente frisante da costa basca, que a cozinha espanhola praticamente só conhece do País Basco e bebe muito frio, jovem e servido do alto.

Txakoli: garrafa da adega Lapazaran, na Bizkaia.
Txakoli: garrafa da adega Lapazaran, na Bizkaia.

O que quer dizer txakoli e onde se diz chacolí

Conta-se que o nome nasceu de uma resposta evasiva. Quando perguntavam a um camponês basco quanto vinho tinha feito naquele ano, respondia etxeko ain, o suficiente para a casa. Daí se terá encurtado para etxekolain e, por fim, para txakolin; os linguistas olham para esta etimologia popular com reservas, mas não têm melhor explicação. Durante séculos o txakoli foi vinho das quintas, não das adegas: fazia-se para a mesa da família e para meia dúzia de vizinhos. Em castelhano chama-se chacolí e foi com esse nome que também se bebeu fora do País Basco, na vizinha Cantábria e no norte da província de Burgos. A denominação de origem protegida, porém, só coube a três zonas bascas, e quando, em 2010, a Cantábria e Burgos reclamaram o direito ao nome, a Cantábria saiu de mãos a abanar e Burgos com uma solução de compromisso que só uma repartição pública seria capaz de inventar: um vale da região pode vender o seu vinho como Chacomena. No Chile faz-se até hoje um vinho completamente diferente com o nome de chacolí, levado para lá por emigrantes bascos - ficou o nome, não ficaram as castas. E o vinho verde português só se lhe parece no estilo: leve, ácido, com agulha, mas de outras castas e sem parentesco.

Dos vereadores de Bilbau aos vinte e um hectares

A história do txakoli não começa com um sultão nem com monges, mas com os vereadores da câmara. Em 1399, a câmara de Bilbau proibiu a entrada de vinho de fora enquanto não se esgotasse o das quintas da terra - o documento com data mais antigo a provar que este vinho existia e valia a pena proteger. Quando foi feito pela primeira vez, ninguém sabe. A proteção caiu no final do século XIX, chegou a filoxera e chegaram os vinhos mais baratos do sul, e o vinho das quintas desapareceu de tal maneira que, em 1982, restavam em todo o País Basco 21 hectares de vinha, menos de trinta campos de futebol. A recuperação foi conduzida pelo produtor Iñaki Txueka, da adega Txomin Etxaniz, em Getaria, e em 1989 nasceu a primeira das três denominações de hoje, a Getariako Txakolina; as outras duas províncias acrescentaram as suas mais tarde.

Txakoli: garrafa da adega Txomin Etxaniz, em Getaria.
Txakoli: garrafa da adega Txomin Etxaniz, em Getaria.

Como se serve o txakoli e com que se bebe

Mais de noventa por cento do txakoli sai de uma única casta, a Hondarrabi Zuri. O nome é quase igual ao do porto de Hondarribia, junto à fronteira francesa, mas é outra palavra - e os sites de viagens confundem-nos sistematicamente. As uvas amadurecem a dois passos do Atlântico e nota-se no resultado: muita acidez, pouco açúcar, álcool à volta dos dez a doze por cento e bolhas que ninguém acrescentou - são restos do dióxido de carbono da fermentação, que ficam no vinho quando este se mantém jovem e frio. Há também txakoli rosé e tinto, da casta Hondarrabi Beltza, mas nos bares serve-se quase sempre o branco.

Bebe-se frio, a seis ou oito graus, e servido do alto. O regulamento da zona de Getaria recomenda vinte centímetros, para que o vinho bata no copo e ganhe agulha; é pela mesma razão que os bascos servem do alto também a sua sidra. O copo é largo e baixo, mais de sidra do que de vinho, e pede-se com artigo: "txakolina, mesedez". Onde sabe melhor é ao balcão, com uma gilda ou outro pintxo, e no txikiteo, em que se bebe um copo em cada bar e se segue para o seguinte; com peixe grelhado ou com o queijo de ovelha idiazabal, equilibra a gordura. No rótulo procura a colheita mais recente: o txakoli não se bebe velho e a garrafa que sobreviveu dois anos na prateleira já perdeu aquilo por que a compramos.

Txakoli: o serviço do alto, para o vinho ganhar agulha.
Txakoli: o serviço do alto, para o vinho ganhar agulha.

Um copo ao balcão em San Sebastián

Bebi txakoli em San Sebastián, ao balcão de um dos bares de pintxos, no meio de gente que nem sequer olhava para o empregado a servir do alto, porque o vê todos os dias. No copo fez espuma como uma gasosa e num minuto assentou numa agulha fina; o primeiro gole era ácido de arrepiar, o segundo já sabia a maçã verde e a côdea de pão salgada, e era tão leve que dava para seguir para o bar seguinte sem remorsos. Quanto custou o copo, não me lembro; é um vinho que num bar de pintxos não se pede pela lista de preços, mas pelo número de bares que ainda faltam. Vinte centímetros, diz o regulamento. O empregado de San Sebastián tinha o seu.

Dan Špaňhel

Dan Špaňhel

Sou o Dan. Escrevo apenas sobre o que provei pessoalmente - da banca de rua à estrela Michelin. Pela comida já percorri meio mundo e experimentei de tudo - o possível e até o impossível.

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