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Idiazabal: queijo de ovelha fumado do País Basco e Navarra

Dan Špaňhel Espanha Atualizado Sem comentários

Treze mil e cinquenta euros. Foi o que um comprador pagou em 2014, no leilão de Ordizia, por metade do queijo vencedor. O preço de um carro usado por um pedaço de queijo de ovelha parece um disparate. Mas na Gipuzkoa o leilão de setembro é, para nós, como a final de hóquei.

A cozinha espanhola chama a este queijo Idiazabal: um queijo curado de leite cru de ovelhas de montanha, prensado em rodas redondas, que cura pelo menos dois meses e é o único queijo espanhol com denominação de origem protegida que pode ser fumado. A maioria das rodas vende-se por muito menos do que em Ordizia. Uma delas acabou por vir parar às minhas mãos.

Idiazabal: fatia de queijo de ovelha servida com marmelada.
Idiazabal: fatia de queijo de ovelha servida com marmelada.

A aldeia que não inventou o queijo, só tinha a morada mais conhecida

Idiazabal é uma aldeia na comarca de Goierri, ao pé das montanhas de Aralar, para onde os pastores bascos sempre levaram os rebanhos no verão. O queijo fazia-se em toda a serra, de Urbia a Gorbea, e chamava-se-lhe queso del país, queijo da terra. Quando se criou a denominação de origem, escolheu-se o nome da aldeia cujos queijos eram, na altura, os mais conhecidos nos mercados e concursos - e é assim que hoje uma aldeia dá o nome a um produto de duas comunidades autónomas. A zona protegida abrange todo o País Basco e Navarra, com uma exceção: o vale de Roncal guarda a sua própria denominação, ainda mais antiga, e o seu Roncal cura mais tempo e tem um sabor mais forte. Do outro lado dos Pirenéus, a cozinha francesa faz, com ovelhas da raça aparentada Manech, o queijo Ossau-Iraty, mais macio, de crosta lavada e sem fumo; e o mais famoso Manchego, de La Mancha, é um parente distante, de outra ovelha e outro clima. Quem quiser comparar encontra um resumo em queijos espanhóis.

Oito mil anos que ninguém mediu

Os sites de turismo gostam de escrever que o Idiazabal se faz há oito mil anos. Oito mil anos é a idade do pastoreio basco, não do queijo; sob o nome atual existe há cerca de cento e cinquenta anos e está no registo europeu de denominações protegidas desde 1996. O que se consegue documentar é o final do século XIX, quando os pastores de Goierri começaram a ganhar concursos com as suas rodas, e depois as datas oficiais, que variam nas fontes em alguns anos. Já o fumo tem uma lenda que os próprios bascos admitem: os queijos ficavam nas cabanas de montanha junto ao lume que aquecia os pastores, e o fumo entrava neles sem pedir licença. As pessoas gostaram do resultado, e por isso hoje fumam-se de propósito, durante seis horas sobre faia, bétula, cerejeira ou pilriteiro, consoante o que a queijaria tem à mão.

Ovelhas de lã grosseira, coalho de borrego e marmelada ao lado

A protagonista é a ovelha de raça latxa, cujo nome significa grosseira, por causa da lã, que não serve para malhas. Só pode pastar nas montanhas da sua zona, e a lei só admite mais uma raça a par dela, a carranzana. O leite não pode ser pasteurizado e coalha-se com coalho de borrego, por isso o queijo carrega o sabor do pasto, do animal e da estação, e uma roda de primavera sabe diferente de uma de outono. A massa, depois de cortada, é firme mas amanteigada, a casca lisa, e na versão fumada de um castanho escuro. Quem conhece o queijo fumado da grelha checa sabe o que esperar do fumo - só que aqui, debaixo da casca, não há uma massa de borracha, mas um queijo firme e amanteigado. Ao queijo junta-se o membrillo, a marmelada de marmelo, cortada à faca em bastonetes - de consistência mais parecida a um rebuçado de gelatina duro do que a um doce de frasco - e um punhado de nozes. O txakoli ácido ou a sidra de maçã dissolvem sem falhar a gordura da ovelha.

No País Basco, o Idiazabal come-se mais no fim do que no início: nas casas de sidra, as sidrerías, é o prato de queijo com marmelada e nozes que fecha o menu depois da omelete de bacalhau e da carne grelhada; em casa aparece no lugar da sobremesa, e nos bares encontra-se sobre pintxos. Corta-se em cunhas finas do centro para a casca, e antes de servir deve ficar pelo menos meia hora fora do frigorífico, senão sabe só a sal. No rótulo decide-se por uma palavra: ahumado é fumado, natural é sem fumo, e quem leva o queijo para casa como prenda deve saber qual dos dois a pessoa aguenta. No primeiro fim de semana de maio, a aldeia de Idiazabal organiza uma feira do queijo com as rodas jovens da nova época. Quem quiser provar queijos de toda a região e não licitar, vai até lá.

Idiazabal: roda de queijo numa embalagem de supermercado.
Idiazabal: roda de queijo numa embalagem de supermercado.

Roda de supermercado

Eu não cheguei ao Idiazabal numa casa de sidra nem num leilão, mas na prateleira de um supermercado espanhol, onde estava embalado a vácuo, com uma ovelha e duas medalhas no rótulo e a palavra madurado, ou seja, curado, não fumado. Não me lembro do preço - só sei que não foram treze mil.

Dan Špaňhel

Dan Špaňhel

Sou o Dan. Escrevo apenas sobre o que provei pessoalmente - da banca de rua à estrela Michelin. Pela comida já percorri meio mundo e experimentei de tudo - o possível e até o impossível.

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