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Vinho búlgaro: as castas locais Mavrud, Melnik e Gamza

Dan Špaňhel Bulgária Atualizado Sem comentários

O único vinho búlgaro que a maioria dos checos conhece tem nome de animal. Nos anos noventa, o vinho Sangue de Urso encontrava-se em qualquer supermercado na Chéquia e muita gente continua a tomá-lo pelo melhor que a Bulgária sabe fazer em matéria de vinho. E, no entanto, em 1978 a Bulgária era o segundo maior exportador de vinho do mundo, logo a seguir à França, e três quartos das garrafas iam para a Grã-Bretanha, não para a Chéquia.

O vinho búlgaro (em búlgaro: българско вино) significa hoje sobretudo castas locais - o Mavrud encorpado e tânico dos arredores de Plovdiv, o Melnik aromático do vale do Struma e a Gamza leve das margens do Danúbio, que voltam aos rótulos ao fim de décadas de cabernet para exportação. E o Sangue de Urso? A versão que hoje se encontra no supermercado faz-se muitas vezes a partir da produtiva casta Pamid, de modo que a nostalgia já não sabe ao que sabia.

Mavrud, Melnik e Gamza: o que só cresce aqui

O nome Mavrud tem duas lendas e uma etimologia. As lendas falam do cã Krum e do forçudo Mavrud, que ia buscar a força ao vinho - numa versão mata um leão, na outra não há leão nenhum. A etimologia é mais sóbria: mavro é preto em grego e o cacho é mesmo quase preto, vindima-se só na segunda metade de outubro e dá um vinho que deve ficar uns anos a repousar. Das castas búlgaras, a única indiscutivelmente endémica é a Shiroka Melnishka Loza, a videira de folha larga de Melnik, do vale do Struma, no sudoeste; o Mavrud cresce também, em pequena escala, na Grécia, na Macedónia do Norte e na Roménia, e a Gamza tem parentes por todos os Balcãs. A Grécia tem as castas Xinomavro e Mavrodafni, mas com o Mavrud só as liga a palavra que significa preto; o mavrudi grego, segundo as fontes gregas, é aparentado, segundo as búlgaras é uma casta à parte, e a disputa arrasta-se em surdina e sem árbitro. A Gamza, por seu lado, foi durante anos tida por húngaros e sérvios como a sua Kadarka, até que o ADN decidiu que são duas castas diferentes com um antepassado comum. A vizinha Roménia assenta nas castas Fetească (o vinho romeno está cheio delas), a Macedónia do Norte no Vranec e a Turquia ainda anda a descobrir o que lhe restou da tradição trácia (ver vinho turco).

Mavrud: vinho tinto de uma casta búlgara, adega Todoroff.
Mavrud: vinho tinto de uma casta búlgara, adega Todoroff.

O cabernet para exportação e o regresso do Mavrud

A Trácia estendia-se pelo território da atual Bulgária, da Grécia e da Turquia europeia, de modo que são três países a reivindicar Dioniso; os achados de videira junto à aldeia de Tatul, nas montanhas Ródope, fazem recuar a viticultura local até ao Neolítico, mas a data exata continua nas mãos dos arqueólogos. Só a época moderna está documentada: os irmãos Minkov fundaram em 1875 uma adega em Karnobat e dezanove anos depois trouxeram de Bruxelas a primeira medalha de ouro búlgara num concurso europeu. Depois veio o socialismo e fez do vinho um artigo de exportação: o Mavrud, a Gamza e o Pamid locais cederam o lugar ao cabernet e ao merlot, que se vendiam melhor na Grã-Bretanha - como se uma padaria de aldeia deixasse de cozer o seu pão porque na cidade se vendem melhor as baguetes. Depois de 1989, a exportação caiu do pico de 300 milhões de litros por ano para 16 milhões em 2022. Os produtores responderam voltando às castas que antes tinham arrancado, e hoje o Mavrud parece uma descoberta, embora nunca tenha deixado de crescer aqui.

Cycle Syrah: vinho tinto da casta syrah, adega Minkov Brothers.
Cycle Syrah: vinho tinto da casta syrah, adega Minkov Brothers.

Quem é que bebe mesmo vinho na Bulgária

O país com fama de potência vinhateira tem um dado incómodo: segundo a OMS, um búlgaro bebe por ano, em álcool puro, 1,2 litros de vinho, mas 4,7 litros de cerveja e 5,1 litros de bebidas espirituosas. Na Bulgária o vinho é orgulho nacional e a rakija é a bebida nacional, e a cerveja é o que se bebe quando está calor. O vinho compensa isso com uma festa: a 14 de fevereiro, quando o resto da Europa compra rosas, os búlgaros celebram o Trifon Zarezan. Os homens - só os homens - persignam-se três vezes, cortam à videira os primeiros rebentos, regam o corte com vinho e polvilham-no com cinza guardada desde a consoada, e depois come-se e bebe-se na vinha enquanto houver. O Mavrud tem, por obra da associação de produtores, o seu próprio dia, 26 de outubro, logo a seguir à vindima. Se escolheres vinho búlgaro na loja, procura no rótulo a casta, não o animal: as garrafas de Mavrud, Melnik ou Rubin (um cruzamento de nebbiolo e syrah criado em Pleven) denunciam o produtor que voltou às castas locais.

Sauvignon Blanc: vinho branco da adega Katarzyna.
Sauvignon Blanc: vinho branco da adega Katarzyna.

Mavrud, syrah e um sauvignon

As três garrafas que se juntaram na minha mesa vinham de três cantos do país. O Mavrud 2020 da adega Todoroff, em Brestovitsa, perto de Plovdiv, que o Estado nacionalizou e depois devolveu aos herdeiros e que Ivan Todorov transformou na primeira adega boutique do país. O Cycle Syrah 2018 dos irmãos Minkov, de Karnobat, os da medalha de Bruxelas. E o Contemplations Sauvignon Blanc 2020 da Katarzyna, a adega mais a sul da Bulgária, junto a Svilengrad, onde as uvas descem por gravidade os três pisos da cave. O Mavrud era denso, escuro a puxar para o roxo, com taninos que ficam no palato e notas de ameixa seca; o syrah tinha mais fruta e bebia-se com mais facilidade; o sauvignon era fresco, sem aquela acidez agressiva dos brancos baratos do sul. Os três bebiam-se muito bem; no Vivino têm entre 3,7 e 3,8 em 5. A Gamza e o Melnik ainda não os provei; ficam para as próximas viagens. Cada garrafa custou cerca de 6,80 EUR. Serviram-me para corrigir a ideia que o Sangue de Urso me tinha metido na cabeça há muitos anos.

Dan Špaňhel

Dan Špaňhel

Sou o Dan. Escrevo apenas sobre o que provei pessoalmente - da banca de rua à estrela Michelin. Pela comida já percorri meio mundo e experimentei de tudo - o possível e até o impossível.

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